. Comboio do meu contentame...
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Lembro-me de ser muito pequeno e andar de comboio. Foi numa viagem na linha do Douro e numa das suas derivações. É uma imagem que mantenho na memória mas que não identifico como sendo da linha do Corgo ou do Sabor. A imagem é de um comboio com locomotiva a vapor. As carruagens eram de madeira com varandins abertos e balaustrada de ferro. Na época havia ainda a carruagens de terceira classe. Os preços não se limitavam a primeira e segunda classe. a estratificação social tinha três níveis. A passagem entre carruagens podia fazer-se por uma porta do varandim de uma carruagem, para o varandim da outra. Uma imagem que não se me apaga da memória pelo impacto visual que me fez a linha a correr por baixo da carruagem. A grande velocidade que a idade de deu a perceber. A proximidade dos taludes. A sensação de perigo, de aventura, de me sentir destemido. O barulho dos carris e do ritmado som da passagem das folgas de dilatação. Esse descontinuo da linha que lhe dá continuidade segura. O cheiro a carvão queimado e as faúlhas voadoras algumas ainda incandescentes. A paisagem fugidia e a sensação do meu equilíbrio no comboio voador. Há dias revivi essa parte da minha infância no comboio histórico da linha do Vouga. O meu contentamento.
António Borges Regedor
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