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Entre o Sono e Sonho
Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.
Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.
Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.
E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre —
Esse rio sem fim.
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
Nem Álvaro de Campos ou Fernando Pessoa, como lhe queiram chamar, esqueceu, nem a tabacaria se perdeu, nem o livro morreu.
Nos próximos dias é lançada uma edição do poema “Tabacaria” de Álvaro de Campos heterónimo de Fernando Pessoa. Esta edição será apresentada numa caixa que conterá o poema mais vinte e cinco fotografias de Lisboa.
Em juízo sumário e sem contraditório já se tinha sentenciado o fim do livro fisico e o elogiu do digital. Pois está agora colocado mais um recurso a esse juizo precipitado.
O livro já foi de placas metálicas, de pedra , de terra cozida, de pele e papel. De todos estes, e mais alguns, materiais e, mais recentemente, desmaterializado. Já foi rolo, placa, volume. Acondicionado em tábuas de madeira, placas de cartão ou cartolina, em fitas magnéticas, discos e disquetes, pens e nuvens. Falado, visto e ouvido. Ainda nos chegam leituras em papel, mas também em “pdf”. No que a mim se refere, recebo mais para ler em pdf do que noutro formato. Não abandono, no entanto, o papel.
E o livro, como se vê, sempre se modificou, adaptou, transformou. E como mostra esta nova edição do poema escrito por Pernando Pessoa. O livro físico reinventa-se. “...o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu. Álvaro de Campos heterónimo de Fernando Pessoa. “Tabacaria”.
António Regedor
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