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Quinta-feira, 5 de Setembro de 2019

O Bibliotecário

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O Bibliotecário, é o primeiro romance de A. M. Dean um professor de culturas antigas. O romance parte da antiga biblioteca de Alexandria que pretende não ter sido destruída, mas escondida. Que terá sido preservada e alimentada durante o tempo, por bibliotecários que mesmo sem se conhecerem trabalharam em rede para a perpetuação dessa grande biblioteca repositório do conhecimento humano. A procura do lugar onde se encontra esse legado de conhecimento acumulado não nos leva a espaço físico, nem mesmo à tentativa de a retomar com a nova biblioteca de Alexandria. A primordial não se encontra em espaço físico, foi digitalizada. Ela está por todos os lados, em rede, acessível de qualquer computador. No romance, duas grandes forças mundiais e antagónicas conspiram entre si para dominar a informação. E o domínio da rede é o domínio global. O romance é, no essencial, uma alegoria à grande biblioteca da actualidade que é a internet.

Dean, A. M. – O Bibliotecário. Lisboa: Clube do Autor, 2012.

 

António Borges Regedor

publicado por antonio.regedor às 11:36
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Segunda-feira, 26 de Agosto de 2019

Biblioteca-Museu

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A Biblioteca Museu foi um conceito de biblioteca que entrou em Portugal por via do iluminismo, um período de mudança de mentalidades. Um tempo de grandes transformações. As colecções de livros já não se circunscreviam apenas ás livrarias conventuais e monásticas. Desde os séculos XII e XIII que se vêm a constituir muitas bibliotecas privadas. É o tempo do desenvolvimento comercial e dos mesteres tão necessários à navegação marítima. Crescimento das cidades. E a necessidade de letrados para os registos, os contratos, as traduções necessárias ao desenvolvimento comercial e económico das cidades. Os letrados da época, designados por clérigos não eram já formados exclusivamente nos colégios episcopais. Formavam-se agora nas Universidades. Pagas pelos burgueses das cidades e pelos nobres que a elas acorriam. Chamavam até si Mestres, a quem pagavam para os ensinar, e com eles formar corporação e ter direitos próprios.

No século XVIII as reformas da Universidade de Coimbra e do ensino tendem ainda mais à secularização da educação. No plano científico verificamos a fundação da Real Academia de História (1720), a fundação do Real Colégio dos Nobres (1761), a formação da Imprensa Régia (1772), a lei relativa à organização do ensino primário (1772) e, finalmente, a fundação da Academia Real das Ciências (1779). Foi instituída a formação profissional dirigida a comerciantes e técnicos industriais, com a instituição da Aula de Comércio, em 1759, uma das primeiras na Europa.

As mudanças no pensamento, na ciência e educação acompanharam a mudança de conceito de Biblioteca, que irá passar gradualmente da esfera privada para a esfera pública. A Real Biblioteca Pública da Corte , em 1836, passará a ser Biblioteca Nacional de Lisboa.

Há duas figuras centrais neste desenvolvimento do conceito de biblioteca. Foram Frei Manuel do Cenáculo e António Ribeiro dos Santos .

Por volta de 1779 havia em Portugal duas mil quatrocentas e vinte (2420) bibliotecas particulares, das quais novecentas e trinta e cinco (935) pertenciam ao clero. (Guedes, 1987). Mais de duas centenas (221) eram bibliotecas de pessoas com formação jurídica, onde a preferência, para além dos livros de direito, incidia sobre monografias e obras de literatura, história e religião. Nas cento e vinte e seis (126) bibliotecas de médicos, além dos livros de natureza médica, os gostos estavam ordenados por literatura, religião e história, áreas disciplinares preferenciais ao tempo.

Tal como refere Pereira (2006), em finais do século XVIII, surge a ideia de criar em

Portugal uma biblioteca de carácter público na Corte. Ideia que provinha dos tempos de

Pombal e de Frei Manuel do Cenáculo. O acervo será constituído pelos livros da Real

Mesa Censória que Cenáculo enriqueceu e com a doação e incorporação de outros fundos.

Vaz (2006) faz salientar que no espírito de Frei Manuel do Cenáculo presidia

a ideia de que as bibliotecas só fariam sentido se abertas ao público, tendo-se insurgido

contra os coleccionadores que trancavam os livros.

Paralelamente, é importante referir que a imagem de biblioteca permanece associada a

museu. Nela encontramos outras espécies que não apenas os livros, como se nota na

descrição de Pereira (2006), ao referir a existência de medalhas, numa versão

correspondente à concepção de biblioteca partilhada por Cenáculo.

Segundo Brigola (2006) terão influenciado esta concepção de Biblioteca-Museu,

mormente o cardeal Ângelo Maria Querini (1680-1755), bispo de Brescia, fundador e

doador de uma Biblioteca-Museu (1750), com quem Cenáculo se encontrou em Roma(1750); assim  como Tommaso Campanella, com a obra intitulada Civitas solis vel de republicae idea (A Cidade do Sol), publicada em 1602.

Durante ainda muito tempo foi-se mantendo a concepção de biblioteca-museu, paralelamente ao conceito de biblioteca pública considerada a servir um público erudito conforme aos ideais iluministas.

Poucos anos depois, com a revolução liberal, os conventos e mosteiros foram extintos e foi com os fundos das livrarias conventuais que se formaram as primeiras bibliotecas públicas em Portugal.

Odiernamente o conceito de biblioteca pública é radicalmente diferente. Mantem-se no entanto a necessidade da preservação dos fundos antigos patrimoniais em bibliotecas especificamente concebidas a esse fim.

Das bibliotecas-museu, não restam mais que estes espaços de memória. Deixaram de fazer sentido.



Bibliografia:

Brigola, João Carlos (2006) – “Frei Manuel do Cenáculo – Semeador de Bibliotecas e

de Museus. O conceito de Biblioteca-Museu na Museologia Setecentista”, in: Vaz,

Francisco A. Lourenço e Calixto, José António, Frei Manuel do Cenáculo, Construtor

de Bibliotecas, Casal de Cambra: Caleidoscópio, pp. 47-53.

Pereira, José Esteves (2006) – “Ribeiro dos Santos, Cenáculo e a criação da Real

Biblioteca Pública”, in: Vaz, Francisco A. Lourenço e Calixto, José António, Frei

Manuel do Cenáculo, Construtor de Bibliotecas, Casal de Cambra: Caleidoscópio, pp. 11-21.

Regedor, A. Borges Regedor (2014) - Bibliotecas, Informação e Cidadania. Políticas Bibliotecárias em Portugal. Séculos XIX-XX p. 43-49

Vaz, Francisco António Lourenço (2006) – “A Fundação da Biblioteca Pública de

Évora”, in: Vaz, Francisco A. Lourenço e Calixto, José António, Frei Manuel do

Cenáculo, Construtor de Bibliotecas, Casal de Cambra: Caleidoscópio, pp. 5-9.

 

 

António Borges Regedor

 

publicado por antonio.regedor às 12:12
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Segunda-feira, 19 de Agosto de 2019

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Bibliotecas Patrimoniais

AS bibliotecas públicas vieram revolucionar a imagem que tínhamos de biblioteca. No entanto as bibliotecas patrimoniais continuam a fascinar-nos. Elas conservam manuscritos, incunábulos, livro antigo, livros protegidos por capas e madeira, pele, com ferragens, alguns até com metais nobres e pedras preciosas, com mais ou menos rubricas, miniaturas, iluminuras. Em pele, pergaminho ou papel, daquele que quase sem acidez e que por isso se conserva por centenas de anos. Bibliotecas pensadas para o efeito. Maiores ou menores, mas com grandes pés-direito. Aproveitando a altura das paredes com mezanines, ou vários balcões, com balaustradas a que se acede por escadas em caracol, visíveis ou mesmo ocultadas. As madeiras trabalhadas, tectos pintados, lustres ou candeeiros de mesa. Bibliotecas que só de as ver nos encantam.

E naturalmente aparecem listas das mais belas. Algumas listas contêm também livrarias comerciais, porque algumas dessas bibliotecas particulares, mais íntimas, também tomas o nome de livraria, por tradução directa do termo em inglês. Nessas listas aparecem habitualmente bibliotecas portuguesas. É o caso da biblioteca Joanina, da Universidade de Coimbra e a do Convento de Mafra. Curiosamente uma das que aparece logo nos primeiros lugares é portuguesa mas situada no Rio de Janeiro. O Real Gabinete Português de Leitura. Eu acrescentaria também a do Conde de Óbidos, no edifício que hoje é a sede da Cruz Vermelha em Lisboa. Haverá muitas outras a merecer um levantamento e registo da sua beleza.

António Borges Regedor

 

publicado por antonio.regedor às 18:18
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Quarta-feira, 31 de Julho de 2019

Aumento da Leitura Digital

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A Leitura Digital aumenta significativamente em Espanha.

Um mail de Enrique Navas Benito do grupo INFODOC que subscrevo levou-me a um artigo do El País assinado por Peio H. Riaño que dá conta de uma medida do governo espanhol de 2014 que com a “eBiblio” passou a emprestar livros digitais através das bibliotecas públicas.

O resultado foi o incremento de leitores todos os anos. Só no último ano foi registado o aumento foi de 101,4 %.

O serviço de empréstimo está acessível 24 horas por dia, 365 dias por ano e empresta livros, audiolivros, jornais e revistas. Apenas precisa de estar ligado à internet e ter um cartão de utilizador da biblioteca pública local.

A oferta de leitura digital é também entendida como uma forma de reduzir a pirataria e garantir direitos de autor. O que se compreende. Ninguém precisa de piratear se o produto estiver disponível de forma legal e de fácil acesso e gratuito.

É ainda interessante referir que a Federação do Grémio de Editores de Espanha regista uma maior venda de livros digitais em ensaio do que em ficção.

 

Fonte:  https://elpais.com/cultura/2019/07/15/actualidad/1563212282_704245.html

publicado por antonio.regedor às 12:47
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Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019

Humberto Ecco.

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Hoje é dia de passar pela biblioteca e voltar a ler “O Nome da Rosa” de Humberto Ecco.

Faz hoje três anos que morreu Humberto Ecco. Volta-me à memória o livro de enorme riqueza informativa sobre a idade média, a vida monástica, as várias correntes do clero regular, as suas diversas visões do mundo e interpretação das escrituras e a sua relação com os  textos filosóficos da tradição Helenística. No final da Idade Média em que a ciência ainda oprimida se tenta libertar do pensamento religioso e afirmar o raciocínio lógico.  Não se trata do simplismo entre o bem e o mal, mas entre  logos e mito,  razão e fé, ciência e religião, teologismo e humanismo.  Tempo de lembrar o Ecco e voltar a lê-lo.

 

António Regedor

publicado por antonio.regedor às 14:58
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Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2019

Bibliotecas em altura

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Bibliotecas em altura como se fossem catedrais.

São belas estas bibliotecas em edifícios de enormes pé-direito. As estantes alinham-se paredes acima. Chega-se a elas por escadas. Normalmente em caracol que acedem aos varandins. Por vezes as escadas são ocultadas. Como acontece na escada da biblioteca do Conde de Óbidos em Lisboa, em que a escada se oculta numa porta relógio e tem a saída numa espécie de púlpito. Nunca deixamos de nos surpreender com as várias formas das bibliotecas.

António Regedor

publicado por antonio.regedor às 16:46
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Domingo, 27 de Janeiro de 2019

Montagem de Bibliotecas

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Uma biblioteca é por definição uma colecção de documentos ordenados de modo a permitir a maior e melhor informação nela contida.

Colecção porque resulta da vontade de alguém reunir uns documentos em detrimento de outros. Tem portanto um critério temático. Documentos por ser constituída por suportes de informação que tradicionalmente eram livros, mas que ao longo do tempo em que foram surgindo novos suportes, discos e fitas magnéticas, visuais, audios, electrónicos e digitais, os foi incorporando sempre pelo critério da informação contida. Ordenados por haver necessidade de recuperar informação, apenas conseguida através da sua descrição física e intelectual. Ou seja, descrever o formato e tipo de suporte físico e descrever o seu conteúdo informativo o mais exaustivo possível através de uma linguagem técnica, artificial que traduza a informação de forma a ser pesquisada e encontrada pela sua pertinência. Quer dizer pela importância que possa ter para o pesquisador.

Normalmente é usada uma notação de localização que resulta da simplificação de uma classificação decimal universal. Alguns, poucos elementos dessa classificação são usados para dar uma cota de localização do documento físico. O conteúdo intelectual pode ser pesquisado mais exaustivamente se tiver sido efectuada uma indexação que usando palavras da linguagem natural, constitua uma linguagem organizada por assuntos no sentido de traduzir o conteúdo dos documentos.

Não havendo qualquer regra que indique a ordem das classes de classificação na montagem da biblioteca, há o costume de as colocar por ordem numérica crescente. Mas não tem de ser assim sempre. Há diversas formas de organizar a montagem das bibliotecas. Uma delas é a organização por centros de interesse. E esta forma é compatível com as cotas das notações da classificação decimal universal, a mais generalizada no mundo ocidental.

 

António Regedor

publicado por antonio.regedor às 19:33
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Terça-feira, 8 de Janeiro de 2019

Bibliotecas Públicas podem fazer melhor

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Sempre disse aos meus alunos As Bibliotecas Públicas podem fazer melhor.
Sempre disse publicamente que as bibliotecas podiam abandonar a mentalidade retrógrada de repartição municipal e passar a apresentar-se como serviço público, útil, dinâmico, inovador.
Abram quando os cidadãos que trabalham tenham disponibilidade de horário.
Abram quando os estudantes têm as escolas fechadas e precisam delas.
Abram para promover novos espaços de socialização.
 
E nem precisam pensar muito, basta que copiem a Biblioteca de Oeiras.
publicado por antonio.regedor às 21:00
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Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2019

Prémio “Exportador de Ciência” para Repositório da UFP

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O Repositório Institucional da Universidade Fernando Pessoa foi distinguido com o prémio “Exportador de Ciência” pelo projecto RCAAP (Repositórios Científicos de Acesso Aberto de Portugal).

Parabéns a toda a equipa da Biblioteca da Universidade Fernando Pessoa

Formados no interior da Universidade, nos seus cursos de Pós-Graduação, Mestrado e Doutoramento. E que são hoje uma referência de disponibilização de produção científica e da sua exportação.

Profissionais bem formados, competentes, dedicados, e como é símbolo da Universidade, Inovadores, como bem mostra o resultado do seu trabalho.

Estão também de parabéns toda a equipa de professores desses cursos. Professores e profissionais especialistas competentes que produziram tão bons alunos e profissionais competentes.

Todos os alunos formados em Ciência da Informação na Universidade Fernando Pessoa devem sentir-se orgulhosos. Alunos da Licenciatura em Ciências da Informação e Documentação, da Pós-Graduação em Ciências da Informação e Documentação. Do Mestrado em Ciências da Informação e Documentação e do Doutoramento em Ciência da Informação.

 

O galardão foi atribuído às instituições com maior número de downloads a partir de origens externas, na cerimónia de celebração dos 10 anos do RCAAP, que decorreu no auditório da Reitoria da Universidade de Coimbra.

O evento, realizado em parceria entre a FCT/FCCN, a Universidade do Minho e a Universidade de Coimbra, teve como objectivo reunir a comunidade para partilhar e reflectir sobre o passado, presente e futuro do RCAAP.

No final, houve lugar à entrega de vários prémios pelo reconhecimento do trabalho desenvolvido pelas Instituições de Ensino Superior nos diferentes subsistemas que integram o projecto.

publicado por antonio.regedor às 15:55
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Terça-feira, 23 de Outubro de 2018

Bibliotecas e Recursos Humanos

 

 

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Como em tantos outros Concelhos do País, Espinho só começou a despertar para a responsabilidade municipal de promover o livro e a leitura depois da revolução social de 25 de Abril de 1974. No dealbar dos anos sessenta do século XX, o panorama dos consumos culturais, altura em que arranca a Rede de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), é particularmente escasso,haja em vista que a taxa de analfabetismo era de 40,3%, com um total de apenas oitenta e nove (89) bibliotecas no país (Barreto, 2000 in Regedor, 2014: 94).

Mesmo muito depois do 25 de Abril, aquando da publicação do Guia das Bibliotecas Municipais (1986), São claramente bibliotecas de reduzida dimensão e só existem em um quarto do número de Concelhos. Apenas dezassete (17) bibliotecas possuíam bibliotecário diplomado. Vinte e duas (22) bibliotecas existiam apenas com pessoal indiferenciado, e quarenta e quatro (44) bibliotecas funcionavam sem qualquer elemento com formação. (Regedor, 2014:141-142)

Até aos anos oitenta Espinho não foi excepção. A gradual preocupação com a cultura, foi lenta e deveu-se a acções de alguns autarcas. O Presidente de Câmara Sr. Bártolo adquiriu em bloco, a uma editora, um conjunto de bibliografia dos anos setenta. O Dr. Azevedo Brandão quando foi vereador da cultura encontrou um pequeno espaço para abrir uma biblioteca ao público. Foi o primeiro andar da escola nº3 de Espinho. Encontrou com disposição de aí trabalhar o Fernando Maia, que teve de ir fazer um curso de técnico de biblioteca. Foi posteriormente reforçada com a vinda da Alexandra Rodrigues que entrou já com formação técnica. A D. Elsa, que se seguiu ao Dr. Brandão na vereação da cultura, teve o meu contributo para organizar a equipa da biblioteca e para concorrer aos apoios que na altura a Secretaria de Estado disponibilizava para a construção de edifício para biblioteca. Por proposta da D. Elsa, ao Presidente de Câmara Dr. Lito de Almeida celebrou comigo um contrato de prestação de serviços para desenvolver os serviços culturais e concorrer aos apoios para a construção de uma nova biblioteca. A primeira equipa foi recrutada de forma muito heterogénea e com gente muito nova que se mostrou muito interessada e se entusiasmou com o desafio. A Fernanda que vinha da ocupação de tempos livres. A Josefina Resende do desemprego de longa duração. O Rui também dos tempos livres, e a Teresa que já tinha frequentado o ensino superior,mas preferiu trabalhar na biblioteca. Tínhamos assim dois técnicos, o Fernando Maia e a Alexandra Rodriques. Aos novos recrutados, eu e a D. Elsa quase os obrigamos a ir para Coimbra frequentar um curso de técnico de biblioteca. O Rui, a Fernanda Godinho, e a Josefina Resende, fizeram-no com esforço, mas entusiasmo e bom resultado. Mais tarde a Isabel Catarino veio integrar o grupo. A competência da Biblioteca de Espinho aumentou de forma notória até mesmo na Biblioteca Nacional de Lisboa que nos forneceu de forma pioneira o programa de informatização. Não havia ainda um novo edifício, mas a capacidade técnica era excelente apesar das instalações provisórias e exíguas. A aprovação do projecto para a construção de novo edifício para a biblioteca foi conseguido ainda no tempo da D. Elsa Tavares e do Presidente Sr. Romeu Vitó. Na realidade foram dois projectos muito discutidos e analisados, nos mais variados pormenores, que tive com o saudoso Arquitecto Rui Lacerda e a que mais tarde se juntou o Arquitecto Castelo. Foram muitos dias passados à frente do estirador a discutir com o Arquitecto Rui e com o Arquitecto Castelo a melhor forma de concretizar o programa de biblioteca de leitura pública. Até ao dia em que fomos a Lisboa discutir com os arquitectos e técnicos do então IPLB a aprovação do projecto.  Dos iniciais técnicos, O Fernando Maia que desde cedo se interessou por computadores, veio depois a Licenciar-se em Engenharia Informática. A Alexandra Rodrigues veio mais tarde a frequentar Ciência da Informação. Refiro isto, para que se tenha a noção de que na administração pública há pessoas com valor, que adquirem competências ao longo da vida, e que quando incentivadas e reconhecidas trabalham com gosto e eficiência. E é normal que recordem com orgulho os seus percursos pessoais e profissionais dedicados ao serviço público e à cultura.

Este ambiente de criação de equipas e formação técnica senti-o igualmente em muitas outras bibliotecas, do Norte e Centro do país, por onde fiz formação a técnicos de biblioteca. A qualificação dos recursos humanos das bibliotecas quase que partia do seu interior, e hoje infelizmente não tem qualquer incentivo dos responsáveis políticos. As actuais debilidades das bibliotecas públicas estão em parte nesta falta de sensibilidade dos autarcas para a necessidade da melhor qualidade dos recursos humanos. E que estes só se conseguem com incentivo e reconhecimento.

A reposição da carreira específica de Biblioteca e Arquivo é crucial para o futuro destes serviços equipamentos.


Nota: As referências pessoais foram citadas de memória. Os referidos terão a liberdade de corrigir qualquer  imprecisão que possa existir.

 

 

António Regedor

 

publicado por antonio.regedor às 13:53
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