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Quinta-feira, 7 de Junho de 2018

Gaspar Matos entre a Biblioteca Pública e a Biblioteca Académica

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Habitualmente surge mais reflexão sobre as bibliotecas públicas que sobre as académicas.  Profissionalmente não é frequente a transição de um sector para outro. São poucos os casos que por essa razão têm a oportunidade de confrontar uma e outra situação. Gaspar Matos é um deles. Por isso o inquirimos.

 

Porque raio te decidiste a fazer formação para trabalhar em bibliotecas?

A minha decisão de fazer formação em bibliotecas teve a ver com dois aspetos:

- não queria continuar a trabalhar na banca (fui funcionário bancário durante 7 anos);

- queria trabalhar na área cultural.

Aliada a estes dois aspetos, pretendia ainda ir para um trabalho em que não tivesse de vender nada a ninguém, que se pautasse por objetivos que não fossem comerciais. Como gostava - e gosto - de ler desde criança (visão que mais tarde percebi ser redutora, face à diversidade de serviços que a biblioteca presta), uma casa cheia de livros pareceu-me um bom caminho. Sendo já licenciado, e como via a entrada direta para técnico superior na Administração Pública como difícil, frequentei o curso de técnicos BAD da APBAD e rapidamente encontrei trabalho como técnico profissional, nas Bibliotecas Municipais de Oeiras (BMO’s).

 

Quando todos pensavam em bibliotecas públicas foste fazer estágio em biblioteca especializada, que vantagem vês nisso?

A formação que tirei na BAD era eminentemente virada para a biblioteca pública, penso que por percecionarem que seriam ainda os municípios os que mais contratavam (isto em 2004/2005). E eram. No entanto, preferi fazer o estágio BAD numa biblioteca de ensino superior precisamente porque achei que deveria colmatar essa lacuna da minha formação inicial, e isso poderia fazê-lo com uma experiência de trabalho. Na altura a Biblioteca da Universidade Fernando Pessoa/Porto acolheu-me, e foi precisamente isso que aconteceu: passei a poder somar, à visão e conhecimento que tinha das bibliotecas públicas, uma pequena perceção das bibliotecas académicas.

 

Mas acabaste por andar algum tempo em bibliotecas públicas, que balanço fazes?

Andei 10 anos (2005-2015), e o balanço que faço é francamente positivo: tive a sorte de começar pelas BMO’s, onde me foram dadas todas as condições para um bom desenvolvimento profissional; acresce que a qualidade dos recursos humanos era muito boa e com competências bastante diversificadas, o que nos potenciava a todos. Foi uma altura em que ampliei muito o que sabia sobre bibliotecas, e fi-lo num serviço de referência nacional. Recordo-me de ir ao congresso da BAD nos Açores, em 2007, e de as BMO’s terem sete ou oito apresentações submetidas, e de irmos um grupo de seis ou sete profissionais, todos a expensas da Câmara de Oeiras. Existia um grande dinamismo, e isso foi muito bom para o meu percurso enquanto bibliotecário. Já em Sines (2009-2015) tive um conjunto de experiências bastante diferentes, na medida em que a biblioteca tinha uma dimensão bastante menor e estava inserida num equipamento (Centro de Artes de Sines) em que todas as valências acabavam por ter de trabalhar colaborativamente (Biblioteca e Serviço Educativo do Centro, por exemplo), o que era algo a que não estava habituado. A Biblioteca tinha de criar a sua identidade inserida numa outra, maior, que era a do Centro de Artes. Não foi fácil - foi até um pouco estranho -, mas tudo acabou por fazer sentido em fusão: o livro pode dar o mote para o espetáculo de dança (existe um serviço de aulas de dança), a exposição (existe uma galeria) pode ser associada à palavra, a palavra à música (existe um auditório), enfim… a Biblioteca de Sines foi um desafio com uma tremendo e que, com o passar dos anos, penso ter sido bem-sucedido. Fico muito feliz por saber que ainda hoje há dinâmicas iniciadas na altura em que lá estive e que se mantêm, nomeadamente a manutenção de alguns projetos e uma programação coerente com o serviço de biblioteca pública. Gostava que alguns projetos de intervenção no espaço público de promoção de literatura, leitura e narração oral se tivessem mantido, mas talvez sejam apenas alguns interregnos: a título de exemplo falo do colar poemas em vinil nas montras de estabelecimentos comerciais da cidade, por ocasião do Dia Mundial da Mulher (existiam já lojas que não os tiravam da montra, de ano para ano, e tinham já coleções de poemas); e outro exemplo seria o Conto de Tantos Mundos, que aliava a palavra dita/narração oral ao Festival Músicas do Mundo. Espero que um dia voltem.

Mas, em suma, faço um balanço muito positivo: tudo isto me ajudou a crescer, e não só a nível profissional e como bibliotecário (acresce que, em Sines, ao fim de menos de dois anos passei a ter responsabilidades acrescidas noutras áreas de atuação, o que só me fez bem). Tem sido um percurso que me tem dado muito gozo.

Qual o caminho que apontas para este subsistema de bibliotecas? Como achas que podem conquistar o público adulto?

O caminho das bibliotecas públicas será aquele que o público definir em função das suas necessidades, e para tal é necessário auscultá-lo. Não há receitas mágicas nem procedimentos estandardizados, já que cada comunidade tem as suas particularidades, e isso vê-se bem no contraste entre, por exemplo, a biblioteca pequena do interior versus a biblioteca de média/grande dimensão do litoral: se a primeira acaba muitas vezes por ser um dos - ou o único - equipamento cultural da localidade, é óbvio que a sua função terá de ser bastante mais polivalente; já quanto à segunda, se muitas vezes cumprem uma função de estudo (não raras vezes vamos às Bibliotecas Municipais de Oeiras, de Lisboa, de Cascais, de Loures, e estão cheias de alunos do ensino secundário e superior), pelo que o seu desígnio principal parece estar destinado ao apoio a esses públicos (que são o grosso dos utilizadores, pelo menos presenciais), não se pode descurar os restantes, principalmente com a urgência que existe em dar apoio a uma população envelhecida e cada vez mais só e outra, muito jovem e deixada aos cuidados de terceiros devido às longas jornadas laborais dos pais.

O caminho é estar atento, oferecer serviços diferenciados, procurar auscultar a população (utilizadora e não-utilizadora) e perceber que há uma série de segmentos com necessidades a colmatar (e aqui tomo o exemplo da biblioteca urbana, da grande área metropolitana):

- o aluno do ensino secundário e superior, que solicita silêncio e de uma coleção enriquecida na sua área de estudo;

- a criança, que necessita de estímulo variados (não só para a leitura mas outros, sensoriais) e que por conseguinte precisa de um espaço de liberdade e aprendizagem informal e lúdica;

- o idoso, que precisa de uma área de leitura informal e de iniciativas que combatam o isolamento e promovam o contacto humano (se possível intergeracional, com as crianças);

- a população adulta em idade ativa, que precisa de um espaço de informação, debate, esclarecimento, cidadania, lazer, aprendizagem ao longo da vida e, acima de tudo, um espaço de afetos, de troca, de partilha, que deixou há muito de existir nas cidades;

Em suma a biblioteca, desde que se democratizou, tem uma missão imensa: ser tudo para todos, daí muitas vezes esta sensação de deriva que à mesma é colada, mas parece-me ser uma falsa sensação: as bibliotecas, de um modo geral e de há uns anos para cá, são equipamentos cada vez mais dinâmicos, plurais e multifacetados. A questão é que muitas vezes aferimos o seu impacto por aspetos mensuráveis tradicionais (número de empréstimos, por exemplo), e não por aquilo que realmente interessa, que é o valor real, o que realmente importa, o que faz a diferença: a biblioteca atenua a solidão de um idoso? Ajuda um jovem a ter melhor desempenho escolar? Permite ao adulto manter-se informado e ativo socialmente? Proporciona o desenvolvimento intelectual e sensorial da criança? Se sim, então, cumpre a sua missão, e isto não se mede com número de empréstimos.


Há apenas um aspeto que gostaria de mencionar, e pelo qual me tenho batido nos últimos tempos (e aproveito este desafio para advogar mais por essa causa). Nesta ânsia de tudo fecundar (como diria o José Mário Branco), arriscamo-nos de facto a copular tudo (isto para não usar o calão mas imaginem-no, que assim a imagem fica perfeita). Explico: há coisas que caracterizam a biblioteca, e o silêncio é uma delas: o silêncio necessário ao trabalho intelectual, o silêncio que muitos necessitam para usufruir de leitura lúdica, o silêncio que muitos exigem para ler convenientemente um jornal, o silêncio necessário à concentração. Não fazendo apologia de uma biblioteca em que o silêncio é sagrado em todo o seu espaço (até porque tal é impossível, face à necessidade de múltiplas atividades para múltiplos públicos, como elenquei acima), faço uma defesa acérrima da salvaguarda de um espaço de silêncio total, dentro da biblioteca. E faço-o porque essa é uma característica absolutamente distintiva destes equipamentos e porque, se pensarmos bem, não há outros na sociedade que o tenham, com exceção dos espaços religiosos. Acresce que a procura por locais de silêncio, numa sociedade tão exacerbadamente dada a estímulos visuais e auditivos, será num futuro não muito distante cada vez mais premente. A preocupação com esta defesa surge porque vejo cada vez mais um discurso exacerbado de que a biblioteca não é um espaço de silêncio, algo com que não concordo de todo. Prefiro afirmar que a biblioteca é também um espaço de silêncio sob pena de, para contentarmos uns e os nossos próprios paradigmas, expulsarmos outros da equação. A esse propósito conto uma história: há uns dias, a propósito de uma imagem no Facebook que rezava assim “Biblioteca não é lugar de silêncio, é lugar de encontro e participação”, uma colega afirmava: “Eu concordo, mas diz isso aos leitores.” Curioso, não é? De que nos adianta concordarmos ou acreditarmos em determinado axioma, se os leitores manifestam outra necessidade?

 

Finalmente qual a diferença e desafio de trabalhar em biblioteca académica?

A grande diferença é termos tudo muito definido a priori: a biblioteca académica tem os seus utilizadores bem identificados e a sua área de atuação bem delineada. O que conta, na biblioteca académica, é ajudar à aquisição de conhecimentos e à produção intelectual e científica. Se na biblioteca pública temos de ter (e ser) tudo para todos, na académica o todo é só para alguns, que têm exigências muito particulares.

Uma biblioteca académica funciona, acima de tudo, na base da intermediação de informação, daí que o enfoque seja na formação de utilizadores e no atendimento. Para que se tenha uma noção não será excessivo afirmar que, num ano, a biblioteca da Faculdade de Psicologia e do Instituto de Educação dá formação a mais de 500 pessoas (e isto considerando que o universo da comunidade é de pouco mais de 2000 indivíduos). Há igualmente espaço para a iniciativa cultural e para que a biblioteca seja um espaço onde dotes como a oralidade, o confronto de ideias e a retórica podem ser exercitados, e esse é um caminho que temos vindo a trilhar, nomeadamente com um grupo de leitores que alia alunos, docentes, não docentes e investigadores e bolseiros e um evento anual a que damos o nome de Capacitar, em que temas pré-definidos são discutidos por especialistas e posteriormente são debatidos por todos sem qualquer obrigatoriedade académica.

 

 

 

Gaspar Matos é bibliotecário desde 2005, altura em que passa a integrar o quadro das Bibliotecas Municipais de Oeiras, até 2009. Nesse ano assume a direção da Biblioteca Municipal de Sines e, em 2011, a chefia da Unidade de Cultura da Câmara Municipal de Sines. Em 2016 passa a integrar a equipa da biblioteca da Faculdade de Psicologia e do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, onde é responsável pelas áreas de atendimento, formação e comunicação. Detém o Curso de Técnicos Profissionais de Biblioteca, é licenciado em Marketing, Pós-Graduado em Ciências da Documentação e Informação e tem frequência do Mestrado na mesma área. É membro ativo do Grupo de Trabalho para as Bibliotecas Públicas, formador na Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas (em promoção da leitura e grupos de leitores) e no Centro Pedagógico do Jardim Zoológico de Lisboa (Storytelling: estratégias de comunicação na educação ambiental), e dinamizador de comunidades de leitores.

 

publicado por antonio.regedor às 13:05
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